31/03/2011

Solidão: Liberdade ou abandono?

Para o desenvolvimento do texto de hoje, separei as definições de solidão e solitude conforme o dicionário:

  •         Solidão é um sentimento no qual uma pessoa sente uma profunda sensação de vazio e isolamento. É mais do que o sentimento de querer uma companhia ou querer realizar alguma atividade com outra pessoa não por que simplesmente se isola mas por que os seus sentimentos precisam de algo novo que as transforme.
  •       Solitude é o estado de se estar sozinho e afastado das outras pessoas, e geralmente implica numa escolha consciente.

De todas as definições já vistas sobre solidão, a minha preferida é a do filósofo Martin Heidegger: estar só é a condição original de todo ser humano e cada um de nós é só no mundo.
Estar só pode ser opcional ou não, mas se você analisar bem ao fundo, concluirá comigo que estar só é totalmente opcional. Estar só não significa não ter ninguém por perto, talvez, mesmo rodeados de pessoas você se sinta só, e talvez sozinho tenha uma plenitude  sem a sensação de abandono.
Nós nos distinguimos um do outro pela forma como lidamos com a solidão: sentimento de liberdade ou abandono. A partir daí podemos construir dois estilos de vida diferentes: o autêntico e o inautêntico."  
Ser autêntico é aceitar a solidão como o preço da sua própria liberdade. E se torna inautêntico quando considera a solidão como um abandono, passando a buscar amparo e segurança nos outros. Permanece na vida sendo um coadjuvante em sua própria história.
Ser autêntico é assumir a responsabilidade de nossas escolhas, correr todos os riscos para atingir seus próprios objetivos e deleitar-se ao encontrar amparo e segurança em sua própria companhia.  Ser dono da sua própria vida.
Estar só não é negativo, e a solução para acabar com a solidão não é encontrar uma pessoa para preencher o vazio existencial, não é encontrar um hobby ou uma atividade, não é se matar de trabalhar e se concentrar nisso para não se sentir sozinho. A solução é aceitar que se está só no mundo. Simplesmente isso. Viver a própria vida, respeitar a própria vontade, expressar os próprios sentimentos, buscar a realização dos próprios desejos. Quando se faz isso, a vida se enche de significado, de um brilho especial."
Não adianta buscar a companhia dos outros para não sentir-se só, porque mesmo junto com os outros você está e sempre será solitário. O outro é muito importante para compartilhar, trocar. O outro é muito importante para a convivência, mas não para preencher a vida, não para dar sentido. A presença do outro nos ajuda, compartilhando, mostrando a parte dele, dando aquilo que não temos e recebendo aquilo que temos para dar, efetivando a troca. Mas o outro não é o elemento fundamental minimizar a condição de solidão.
Solidão nada mais é que sentir falta de si mesmo. Só depois de me reconhecer, aprender a ficar comigo, me acolher, me aceitar, me amar, me curtir; alcançarei a qualidade de vida ideal, para depois entrar numa relação afetiva, pronta para fazer trocas.
Estar só pra mim é como um delicioso sorvete que curto cada lambida, aí chega alguém e eu ofereço: Está servido? – Se a pessoa aceitar, repartirei com maior prazer... mas se ela recusar.. hummm... lambusar-me-ei!
Gosto muito da frase: “Todo homem tem dentro de si um vazio do tamanho de Deus.” [Dostoievski]
Nele sim vale apena depor todas as expectativas.

01/03/2011

SAUDADE QUE DÓI

Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, doem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é saudade.

Saudade de uma irmã que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, que o tempo não perdoa. Doem essas saudades todas.

Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o escritório e ele para o dentista, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.

Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua pintando o cabelo de vermelho. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela tirou a habilitação como prometeu. Não saber se ele tem comido frango assado, se ela tem assistido as aulas da faculdade, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua preferindo Coca, se ela continua sorrindo, se ele continua tocando, se ela continua cantando.

Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.

Saudade é não querer saber se ele está com outra, e ao mesmo tempo querer. É não querer saber se ela está feliz, e ao mesmo tempo querer. É não querer saber se ele está mais gordinho, se ela está mais bela.
Saudade é nunca mais saber de quem se ama, e ainda assim, doer.